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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Post #171 (#152 Pt. XVIII)

Bárbara não sabia cozinhar. Ela, assim como eu, era um desastre na cozinha. A gente comia fora quase todo dia, porque nem ela aguentava comer sua comida. Eu, sendo pior que ela, nem me atrevia a chegar perto do fogão. Quando comíamos em casa, eram sempre porcarias, como pizza. Quem tinha sempre a ideia de comprar essas coisas era ela. Detesto comida chinesa. Eu era obrigado a fritar um ovo quando ela pedia esse tipo de coisa. Gorda!
Numa noite dessas, estava trovejando muito e o vento fazia muitas folhas colarem em minha janela. Era sexta feira. A chuva era tão intensa que Doyle se encondia em baixo das pernas de Bá - me sentia tão dezessete chamando ela assim. Ela teve uma ideia tão brilhante que senti vontade de beijá-la. Vendo eu e ela, juntos, assistindo filme e comendo porcaria todo fim de semana, olhava para o Doyle e ficava se perguntando o que ele pensava. Olhava para aquela coisa de pelos, gorda e preta com manchas amarelas e perguntou:

- Por que o Doyle não tem uma gatinha?
- Nunca tentei apresentá-lo para uma. Não sei, eu me sentia tão sozinho que ia morrer de ciúmes vendo ele com um amorzinho assim.
- Você poderia muito bem tentar fazer isso. Agora que você me tem ao lado, quem morre de ciúmes é ele. O que acha?
- Eu não sei. Ele parece feliz, brinca com a lã, arranha minha perna, ronrona e come bem. Acho que não é a hora dele arranjar uma mocinha com pelos.
- Você é muito idiota, viu?!

Depois dessa maneira maravilhosa de referir-se à mim, olhamos os dois para o Doyle lambendo o braço dela enquanto trovejava forte lá fora. Lembram dos filmes ruins? Ainda estavam em casa. Passamos mais aquela noite fazendo a mesma coisa, até que dormimos ali mesmo, novamente. Sábado a gente não ia ter o que fazer. Era folga de Bárbara e não planejamos nada, resolvemos andar pelo centro, já que ela estava precisando de sapatos novos. Aproveitei o embalo e resolvi fazer o mesmo. Eu teria comprado o sapato, se não tivesse antes comprado um disco do Velvet Underground, importado e de prensagem original. O preço de um sapato. Posso andar descalço agora.
Enquanto íamos até a loja que ela queria, encontramos o tal amigo dela na rua. Era um rapaz bem arrumado, bonito, tinha barba e cara de que fazia qualquer moça cair aos seus pés. Cumprimentei-o sem muita emoção enquanto éramos apresentados por ela:

- Artur, esse é o Glenn. Glenn, Artur...
- Como vai?
- Muito bem e você, Glenn?
- Vou bem... Vou bem.
- Ótimo. Como foi que você conheceu a Babi?
- Babi...? - já com sangue nos olhos.
- É, bem... - meio confusa, parecia transtornada - a gente precisa ir agora. Até mais, Artur!
- Tudo bem - rindo ironicamente - até mais, Babi. Tchau aí, cara!

Alguma coisa me invadiu na hora. Eu não gostei do olhar que siau dos seus olhos em direção aos olhos dela quando falou "Babi". Senti bastante ciúme na hora, senti vontade de quebrar os dentes brancos que aquele cara tem. Olhos azuis, pff... O que as pessoas tanto gostam nisso? Esquecemos dele, esfriei a cabeça e fomos atrás de seus sapatos. Eu adorava o fato dela não fazer cerimônia para comprar. Pegava o que lhe agradava e não ligava para marcas. Com o dinheiro que lhe sobrou, acabamos comprando chocolates e pegando mais um filme. Eu precisava de um video game...

continua...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Post #169 (#152 Pt. XVI)

Sexta feira, um dia antes do meu aniversário, Bárbara conversava com S. Fachada para ver o que iria ser feito para mim. S. Fachada ficou triste em ver que teria compromisso no dia, não pôde fazer nada e ficou triste ao saber que eu novamente iria ficar sem uma comemoração. Bárbara ficou desolada, ela queria só me agradar e me dar o que eu nunca tive na vida. Aquela sexta feira foi marcada por uma noticia muito boa: Eu não precisava ir ao trabalho segunda feira. Isso só deixou minha sexta feira, meu último dia de vinte e oito anos, melhor. Como era o dia em que Bárbara saía mais cedo do trabalho, fui buscá-la no sebo para que pudéssemos passear um pouco. Comemos fora e depois alugamos filmes ruins para ficar assistindo a noite toda. Pareciamos duas crianças tirando o audio e redublando aqueles filmes. Dávamos gargalhadas estridentes e Doyle reclamava sempre de nós. Cortamos a madrugada fazendo isso, até que dormimos sem perceber.
Chegou o sábado. Dia 13/07; meu aniversário. O dia amanheceu normal, como qualquer outro e Bárbara não me deu parabéns. Não reclamei. Fiquei imaginando se ela tinha esquecido disso. Seu expediente começava ao meio dia, então ela fez seu café e estava na sua vez de usar a vitrola. Não a perturbei e resolvi ir ao quarto para escrever alguma coisa. Quando abri a porta do quarto, ouvi a voz de Bárbara cochichando algo. Fui de fininho ver o que estava acontecendo na sala, eis que me deparo com ela conversando com o Doyle, fazendo gestos, como se estivesse impondo condições ou dando ordem ao gato. Aquilo me assustou, mas me alegrou ao mesmo tempo. Morri de rir vendo ela fazer aquilo, mais ainda de ver ela tentando se explicar. Peguei meu café e ela desceu para ir ao trabalho. Não aguentava mais escrever, fiquei na sala junto de Doyle para ouvir, pela primeira vez, meu disco do Cartola. Juro para vocês, caros leitores, que quase chorei ao ouvir "Acontece" com aquela voz maravilhosa que só o mestre Cartola tinha. Doyle, quando gostava do que ouvia, dormia em meus braços, coisa que se repitiu mais uma vez. Eu tinha um gato sambista.
A tarde estava se acabando e não recebi nenhum telefonema me parabenizando. Minha desilusão cresceu consideravelmente. Bárbara chegou feliz, me deu um beijo, mas não comentou nada sobre o dia. Pegou o Doyle no colo e praticamente me expulsou de casa:

- Sai! Eu e o Doyle temos muito para fazer.
- O que é?
- Sai logo, poxa!

Peguei um livro de Bukowski e saí, já que estava sendo expulso de minha propria casa pelos amores de minha vida. Eu desci e comecei a me perguntar o que ela estava aprontando. Disse para eu voltar em cerca de meia hora. Minha curiosidade era notavel! Eu estava ansioso, eu odiava surpresas ou que escondessem as coisas de mim. O que será que ela teria para fazer no meu apartamento que eu não pudesse saber? Quando deu o horario, voltei para casa. Abri a porta lentamente, e as luzes estavam apagadas. Acendi e não pude acreditar no que via. Bárbara com Doyle nos braços, atrás de uma mesinha com um bolinho em cima e na parede havia um papel crepom escrito "Parabéns, querido!" de uma forma muito feia, improvisada, como se tivesse sido feito na hora - e tinha mesmo.

- Surpresa, amor! - sorrindo, de maneira encantadora.
- Ah, eu não posso acreditar nisso! Você fez isso tudo sozinha?
- Negativo. Sem o Doyle nada disso teria sido feito. Ele ajudou a escolher a cor do papel e o sabor do bolo. Espero que tenha gostado, a gente deu um duro danado para fazer tudo isso para ti!
- Você é inacreditavel! - lacremejando - Eu não acredito que tenha feito isso por mim.
- Na verdade, na verdade, eu iria fazer algo maior com a ajuda de Fachada, mas ele teve um imprevisto, então eu tive que fazer tudo isso sozinha.
- Miau! - sim, ele miou na hora. Ele era mais esperto que eu.
- Digo, com a ajuda dessa bola de pelos!

Eu não me importava com os outros anos que eu teria pela frente. Nenhuma festa de aniversário que eu futuramente pudesse ganhar, teria um valor sentimental tão grande quanto essa. Nunca imaginei que alguém iria realmente fazer isso por mim. Minha admiração por essa moça de cabelos lindos e sardas que pintavam seu rosto só sabia crescer. Eu amava Bárbara cada dia mais e ela sabia disso. Já não conseguia viver sem ela ao meu lado. O bolo não foi ela quem fez, comemos boa parte dele e depois fomos ver mais alguns filmes ruins. Eu amava beijar aquela testa toda noite antes de pegar no sono...

continua...

Post #168 (#152 Pt. XV)

Passei a tarde conversando com o Doyle, pensando se aquele rapaz tinha voltado ao sebo para "comprar" mais alguma coisa. Desenhei qualquer coisa para o trabalho e resolvi relaxar. Deixei meus chinelos no chão e apoiei meus pés sobre o sofá, enquanto comia Doritos com Doyle aos braços. Eu olhava para o teto e só sabia pensar naquele maldito cara. Eu não me via tão preocupado assim desde... desde... nem lembro desde quando. Doyle me entendia, ele olhava para minha cara e sabia bem o que eu queria dizer com isso. No fim daquela tarde, resolvi espairecer. Saí de casa e resolvi dar uma volta. Peguei um livro qualquer, escolhido aleatoriamente e desci à rua. Fiquei feliz em ver que iria passar algum tempo com Dostoiévski.
Quando cheguei em casa, pouco tempo depois, Bárbara ainda não havia chego em casa. Estava tudo intacto e eu já comecei a ficar mais pensativo. Tirei o volume da barba e esperei à mesa ela chegar para conversarmos. Quando chegou, chegou com o mesmo olhar do dia anterior, fui logo perguntando:

- Encontrou aquele cara novamente?
- Sim. Ele voltou ao sebo mas, dessa vez, não queria comprar nada.
- O que ele queria?
- Ah, como éramos muito amigos, queria só saber como eu estava, aonde estava morando, o que estava fazendo da vida, se estava namorando...
- E você...?
- Respondi. Disse que minha vida estava melhor do que nunca e que havia encontrado finalmente a parte que me faltava. Perguntou seu nome, o que gostava de fazer e eu respondi.
- Disse o quê?
- Ah, o que eu diria para qualquer um que me perguntasse de você. Disse que você adorava escrever e desenhava para um jornal da cidade, até que ele disse "Ora, então ele é o Glenn daqueles quadrinhos? Diga que adoro seus diálogos!". Só.
- Fico grato em saber que alguém realmente vê aquilo tudo - sorrindo.
- Você... Não está com ciumes, né, meu bem?
- Confesso para você que... Ah, esquece. Não há de ser nada.

Enquanto dizia isso, foi me contando do seu dia. Disse que estava bastante contente de ter encontrado seu velho amigo de adolescência. Depois, me mostrou uns passos de dança que gostaria que eu decorasse. Disse que estava cansada de dançar valsa para o Doyle, resolveu aprender tango. Ai, que guria maravilhosa! Me ensinava tanta coisa e eu gostava dela cada dia mais.

sábado, 3 de julho de 2010

Post #166 (#152 Pt. XIII)

Uma noite antes da tal festa da filha de S. Fachada, a gente havia conversado sobre algumas coisas que envolviam nosso futuro. Não pensamos em nada além de morarmos juntos para ver o que sairia dali. Me senti bem aliviado ao ver que ela não queria separar-se de mim - tão cedo, pelo menos. Naquela noite assistimos The Notebook, o chato é que nós dois já haviamos decorado cada fala dos personagens. Isso a gente tinha em comum, nosso filme favorito era o mesmo. Acabamos dormindo na sala mesmo, abraçados, eu ainda não tinha me acostumado com alguém gostando de mim com aquela intensidade. Era tudo o que eu sempre quis. Quando acordei, percebi que ao invés de Bárbara, tinha Doyle nos meus braços, fiquei me perguntando o motivo dela ter feito aquilo. Quando me dei conta, ela estava passando nosso café olhando para mim deitado:

- Você com o Doyle nos braços ficou parecendo um bebê com ursinho.
- Como você é sem graça. Por que fez isso?
- Porque você é lindo!

Falo sério. Meu dia não poderia ter começado melhor que isso. Como a festa era só à noite, eu não tinha o que fazer no trabalho e ela estava de folga, resolvemos andar um pouco no centro. Fomos até a praça central e ficamos lá vendo as pessoas passearem com suas caras de que têm muitos problemas e que ninguém se importa com eles. Foi uma bela manhã de inverno, não havia uma única nuvem no céu para estragar aquele azul. Acabamos comprando uns sorvetes e alguns discos que ela queria. Ela gostava mais de CD's do que de vinis. Como ela trabalhava em sebo, ela tinha algumas artimanhas de como pegar os discos que ela gostava. Maldita! Não quis pegar os discos que eu pedi.
Passamos a tarde em casa nos entupindo de televisão até a hora de irmos até a tal festa. Acho que nunca me arrumei tão bem quanto aquele sábado. Eu iria ser apresentado como namorado de Bárbara, apesar de já conhecer S. Fachada do sebo. Fomos de ônibus, como a gente não tinha carro. O caminho é longo e o lugar era longe demais. Chegamos atrasados, porém, a tempo de vermos a filha de Fachada entrar com aquele vestido de um bilhão. Eu nunca havia sido convidado para esse tipo de festividade. A festa foi bem chata - novidade? - eu fiquei o tempo todo sentado, já que não gosto de mostrar meus dotes de dançarino ao público. Só via Bárbara conversando com S. Fachada toda hora:

- Semana que vem, é aniversario do Glenn! Ele não sabe disso, mas eu quero fazer uma festinha para ele. Os pais dele nunca o fizeram por alguma motivo meio idiota, quero vê-lo feliz em comemorar seu 29º inverno.
- E tu queres que eu faça o que, menina?
- Você poderia convencer o pessoal do sebo para irem lá na nossa casa. Eu tentaria dar um jeito de falar com os amigos do trabalho dele. Nada muito grande quanto a festa de sua filha.
- Ah, esta festa de Maria está uma maravilha que só! Isso aí de seu parceiro é surpresa?
- Sim! Ele não pode saber disso. Ele está olhando para nós, mas nem deve desconfiar do que estamos conversando.

Ela veio caminhando até a minha mesa:

- Quer ir embora, querido?
- Você quer?
- Por mim tanto faz. Festas enjoam fácil.
- Talvez seja por isso que nunca comemoraram o meu aniversario.

Saímos de lá um pouco cansados. Ela se despediu de S. Fachada e de sua filha, saímos do salão e fomos pegar o ônibus de volta. Já era o último, por alguns minutos não teriamos que pedir carona, coisa que eu sempre odiei fazer na vida. Ao entrar no ônibus, me bateu um enorme remorso de ter bebido tanto refrigerante. Quase mijei dentro do ônibus mesmo. Aquela noite foi bem diferente para mim e eu devo tudo isso à Bárbara.

continua...

Post #165 (#152 Pt. XII)

O nosso primeiro dia morando juntos foi maravilhoso. Eu estava com um medo enorme que nossas vidas se transformassem em cruzes para carregarmos sem querer, como se vê por aí com tanto casal. Eu me via disposto a levar isso à diante pra sempre, só tinha medo de que para ela, alguma coisa mudasse. Apesar dela me dizer coisas legais a todo momento e me fazer cafuné quando eu pedia, eu sentia insegurança ao tocar no assunto "nosso futuro". Talvez fosse mais uma atitude previsivel do meu pessimismo, coisa que eu já deveria ter esquecido há tempos.
A minha vida, coincidentemente depois da vinda de Bárbara para minha casa, só melhorou. Eu até recebi um aumento no meu trabalho e uma proposta de desenhar para uma revista bastante conhecida no país. Acabei recusando, porque eu era meio com o pé atrás com essas coisas de televisão em papel. Prefiro não saber nada do que ver as coisas com a visão deturpada que as revistas me passavam. O fato de eu ter recusado e continuar ganhando meu sustento mínimo, não tiraram o fato de minha vida estar indo muito bem. Aprendi até a conversar com as pessoas do meu trabalho e aos poucos fui fazendo amigos. Estranho, depois de três anos convivendo com elas eu começo a trocar um cumprimento diario. Eu sempre as via como pessoas estranhas, julgava-os pelas suas caras que chegavam todo dia. Ouvi-os cochichando, achando estranho essa minha mudança brusca de humor.
No trabalho de Bárbara também. A sua simpatia contagiante trazia admiradores de livros. Como era a melhor funcionaria, era como se fosse a preferida do chefe, conhecido como "Seu Fachada". Seu Fachada, quando saía, deixava o comando em mãos de Bárbara, ela era a única em que ele depositava sua total confiança. E pensar que trabalhar em um sebo nunca havia passado pela cabeça dela. Diferente de mim, Bárbara já tinha amigos no trabalho. Todos a cumprimentavam e a adoravam. É impressionante como ela poderia ter se apaixonado por mim, alguém tão diferente dela.
Certo dia no trabalho, Seu Fachada convidou Bárbara para a festa de sua criança de quinze anos. Era uma menina que acabara de conhecer o amor e estava apaixonado por um menino de sua classe. Bárbara sempre gostou de festas de aniversario, principalmente as de quinze anos que eram coisas grandes e sempre chovia de gente falsa. Aceitou o convite sem pensar duas vezes. Ao chegar em casa, esperou a minha chegada para que pudesse me contar que iriamos a uma festa. Cheguei tarde naquele dia, veio logo me perguntando:

- Por onde você esteve?
- Fui ao sebo onde trabalha agora...
- Mas você sabe que eu saio antes das sete horas.
- Não fui por você, fui, finalmente, comprar aquele disco do Cartola!
- Então tudo bem. Tenho uma coisa para te contar.
- Conte-me!
- S. Fachada nos convidou para uma festa de aniversario de sua filha e eu disse que a gente iria.. Tudo bem para você, querido?
- Oh, claro... Por que não? Quando vai ser?
- Dia seis de julho. Exatamente uma semana antes do seu aniversario.
- Juro que até tinha esquecido do meu aniversario.
- Está cansado do trabalho? Sente-me que vou lhe preparar uma sopa que minha mãe me ensinou a fazer.
- É por isso que eu gosto de você. Você lê a minha mente sempre.
- Pare de me mimar, seu besta!

Com a minha vida indo bem do jeito que estava, não vi motivos para recusar aquele convite.
Fiquei esperando o dia da festa mais feliz ainda, afinal, finalmente havia conseguido comprar o disco do Cartola. Quando o assunto era música, me sentia avô de Bárbara. Gostava de sambas dos anos 30, enquanto ela gostava de umas bandas dos anos 90. Ela não se importava quando eu ouvia Cyro Monteiro, assim como eu não me importava com ela ouvindo Soulside na mesma vitrola. Eu gostava das coisas que ela ouvia... Aliás, eu gostava de tudo nela.

continua...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Post #164 (#152 Pt. XI)

A gente já não tinha mais o que pensar de ruim. Éramos pessoas bem pessimistas, na realidade. Conseguimos imaginar escuridão em um campo de flores. Nos sentimos culpados, abraçados, pensando o pior que poderia vir com Clara. Ainda hoje, imagino que nosso pensamento negativo, foi quem levou Clara embora de nossas vidas. Clara morreu naquela noite mesmo, sem a família por perto, sem os outros amigos - tinha muitos, era bem sucedida socialmente - apenas nós lamentando sua triste perda. Bárbara perdia, naquele instante, uma parte dela mesma. Ela parecia não acreditar. Ela não queria acreditar, vendo que Clara não estaria mais junta, começou a pensar em coisas mais sérias. Com quem ela iria morar agora? Com quem iria dividir o aluguel do apartamento? Com quem iria dividir os segredos e contar as novidades? Sentiu falta da sua boneca.
Ao ver Bárbara sofrendo calada daquele jeito, confusa demais com tudo o que estava ao seu redor, resolvi tentar lhe ajudar. Não havia mais motivos para não tentar ficarmos mais próximos. Ofereci-lhe, assim, um cantinho de teto no meu apartamento. Disse que não precisava de aluguel e que o seu café eu mesmo passava. Ela pensou um pouco, mas no final acabou aceitando. Ela estava segura comigo e ela sabia disso.

- Mas, querido, será que o Doyle não vai estranhar a minha presença?
- Se ele não quiser você lá dentro, te boto para fora de casa! - em tom irônico
- Então ok...
- Não seja besta, é claro que estou brincando. Mas, se ele não gostar de ti, terão de aprender a viver sob o mesmo teto. E que sua raiva de gatos não se torne uma pedra nesse caminho, entendido?
- Entendido!

Naquela noite mesmo, fomos ao seu apartamento pegar umas roupas dela para que pudesse passar a noite comigo - dormindo separados. Ficamos combinados dela não ir ao trabalho, para tentar se recuperar dessa perda que sofreu. Ela ficava em casa enquanto eu, antes de ir ao meu trabalho, iria ao sebo conversar com seu superior. Acabou dando tudo certo. Fui ao sebo, fui ao trabalho normalmente. O melhor do meu dia foi chegar e ver um sorriso naquela boca. Eu estava cada dia me sentindo melhor e Bárbara sabia que era ela a culpada disso tudo. Na manhã seguinte, passou em seu trabalho pedir permissão ao chefe para resolver os problemas de sua antiga casa. Fiquei feliz demais ao saber que, estávamos, enfim, morando juntos.

- Agora você se fodeu!
- Por quê? Consegui tudo o que queria. Tenho meu gato e minha namorada junto de mim. Me sinto um adolescente descobrindo a vida. De vinte e oito anos, mas ainda assim adolescente.
- Não interessa. Você vai ser minha cobaia para tudo. Já que Clarinha agora é ausente, quem vai provar meus bolos e outras coisas que faço na cozinha será você!
- Tudo bem, até hoje eu só sei comer comida congelada. Ter uma chefe de cozinha particular vai ser ótimo!
- Vou ter que te fazer cócegas e te passar maquiagem também. Você vai ser minha melhor amiga, só que com barba...
- Eu posso ser sua melhor amiga, mas sem a maquiagem, né?
- Eu estava só brincando com você, bobo! - disse-me isso usando o mesmo sorriso que me conqusitou.
- Precisamos melhorar esses nossos pensamentos ruins. Ao seu lado, agora, quero descobrir como é pensar coisas legais. Parar de procurar maldade em todas as coisas que me cercam!
- Com o tempo a gente aprende. Você me ensina.

Dei um beijo em sua testa e fui ao sofá para dormir, enquanto ela foi para o banheiro tomar um banho. Eu deveria ter pensado melhor antes de me apaixonar por Bárbara, ela era uma péssima cantora.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Post #160 (#152 Pt. IX)

Bárbara insistia em querer saber do meu passado. Mesmo sabendo que eu não gostava de tocar nesse assunto, ela fazia manha e me falava com uma voz tão doce que uma hora eu tive de ceder. Ela me perguntou sobre meus pais, disse-a que morreram quando eu tinha vinte e cinco e que antes disso minha vida era mais legal. Contei que antes deles partirem, eu me apoiava neles como base para tentar ascender nessa minha vida. Depois, pensei em morrer. Minha autoestima nunca foi minha virtude. Eu sempre fui pessimista e fazia drama para tudo. Me perguntava como eu era com as "menininhas" e ela não acreditava no que eu dizia. Contei que até os dezessete anos, havia beijado duas garotas. Contei que eu morria de amores em segredo, coisa que fiz até dizer-lhe o que sentia. Ela me disse que eu deveria ter parado de ser assim já na adolescência. Disse-me isso como se me observasse desde então. Ela me entendia tão bem, que às vezes achava que ela era eu. Em pouquíssimo tempo, ela conseguiu bagunçar todo esse meu coração cansado de mágoas na adolescência. Eu de fato odiava falar na minha juventude.
Eu perguntava como ela era quando mais jovem. Me falou que sempre foi a menina mais esperta da classe, que sempre tinha as melhores notas e sempre servia de exemplo para todas as coisas boas. Ela ria quando eu dizia que duvidava disso tudo. A parte amorosa de sua vida jovem, ela não quis me dizer, mesmo eu dizendo todo o fracasso que eu era. Ela dizia que não queria me deixar triste contando coisas que não iriam me fazer sentir bem, pois, disse que não era tão diferente do que eu era. Se eu era essa coisa patética e já ficava triste por mim, nem quis saber, que era para não ficar triste por quem eu zelava. Me contou que teve um gato (!) e que passou a odiá-los após esse gato rasgar uma de suas bonecas. A favorita. Sua mãe tentava explicar que ele não sabia o que fazia, que era muito filhote, mas Bárbara não entendia. Ela amava aquela boneca mais do que a si mesma. Dizia ser sua melhor amiga. Convenhamos que um gato é bem melhor que uma boneca...
Ao perguntar do seu pai, ela falava com orgulho. Não perguntei muito, pois não quis me intrometer demais. Mas o que deu a entender, é que ela gostava mais do pai do que da mãe. Seu irmão era chato, enchia seu saco toda momento, ouvia músicas ruins e gostava de carros. Típico. Hoje ganha a vida na Austrália e vive muito feliz esposa e filhas, como já havia me dito.
Enquanto a gente conversava sobre sua vida, seus pais, hábitos, eu insistia em saber sobre a vida amorosa, até que ela resolveu abrir o jogo. Quando tinha dezesseis anos, ela começou a gostar de uma menino que conhecera uns anos antes. Resolveu contar ao menino e começaram a trocar uns beijos às escuras. Eram bem reservados e não queriam que virasse algo muito público, o que acabou não acontecendo. O que Bárbara não sabia, é que um amigo seu adorava ela, ela era extremamente fofa com ele - mesmo? - e ele era apaixonado por ela sem dizer nada. Pelo o que me disse, coitado, não era bem sucedido de coração. Quando contou à ela sobre tais sentimentos, Bárbara não soube o que fazer. Gostando de um menino que se mostrava indiferente e tendo um amigo tão carinhoso ao lado implorando por um abraço apertado. Essa era a tão temida coisa que tinha para me falar. Ela se odiava por conta disso, ainda hoje. Tentei confortar-lhe dizendo: "Querida, tenho certeza que coisas assim acontecem ainda hoje."...

Post #159 (#152 Pt. VIII)

Vocês, caros leitores fieis, já se sentiram bem? Não bem de estar bem, mas um bem supremo que é capaz de pôr você em outro nivel de vida. Já sabem com é estar sendo amado verdadeiramente? Já sabem o que é poder abraçar a pessoa por quem você guarda um amor maior que a simples amizade? Em vinte e oito anos eu não sabia o que era viver essas coisas. Até que eu encontrei ela. Daquele dia em diante, eu comecei a me sentir a pessoa mais feliz do mundo - se já era quando era só amigo, imaginem agora. Finalmente tenho uma motivação para continuar respirando e vivendo no meio dessa cidade cheia de jornais pelas ruas e carros e vão à toda velocidade para lugar nenhum. Eu e Bárbara acabamos ficando mais amigos ainda, só que agora trocávamos beijos, coisa que eu mais queria fazer com alguém quando tinha meus dezessete.
Em uma noite de quarta feira, liguei para ela como de costume para ver como estavam as coisas, como tinha sido o seu dia e tudo aquilo que eu insistia em saber. Deixava escapar uma pontinha de ciume perguntando se existia uma outra pessoa morando em seu pensamento. Isso era a única coisa que Bárbara odiava em mim. Eu perguntava isso só para encher o saco, eu confiava demais nela e não iria botar tudo à perder por um ciume bobo. Sei que ela pensava igual sabendo como eu sou e sempre fui. Convidei-a para sair aquela noite. Tomar um café em alguma lugar, mas recusou. Disse que precisava ajudar Clara que estava doente. Eu fiquei chateado e perguntei porque Michael não poderia fazê-lo, até que eu soube que Clara havia terminado tudo na noite em seguida em que dormiu na casa dele. O motivo eu juro que não quis saber...
Bárbara odiava gatos. Quando disse que meu amigo mais fiel era Doyle, ela me chamou de idiota. Perguntou o por que de eu não tinha pego um cachorro. Dizia que eram bem melhores que gatos, que gatos eram interesseiros e aquela coisa que todas as pessoas do mundo falam sobre os gatos. Ela odiava o fato de eu não saber conversar com pessoas desconhecidas, não sei o motivo também, já que ela nunca soube fazer isso. O trabalho dela exigia saber dessas coisas, exigia sorrir para os clientes... Esse deve ter sido o melhor trabalho que ela conseguiu na vida. O fato de um gato dividir o mesmo teto que eu, fez Bárbara recusar meu convite para vir aos meus aposentos uma vez. Mas depois que nos declaramos, até o ódio por gatos ela resolveu esquecer. Ela era a coisa mais incrível que aconteceu na minha vida.

sábado, 26 de junho de 2010

Post #158 (#152 Pt. VII)

Acabamos nós quatro - eu, Bárbara, Clara e seu novo namorado - indo ao cinema. Fizemos que nem adolescentes, em casais assim, coisa que até então eu nunca tinha feito na vida. Resolvi fazer tudo o que minha adolescência não permitiu; abracei ela fingindo me espreguiçar, coloquei minha mão sobre a dela "sem perceber" no apoio de braço, isso fez ela soltar uma gargalhada no meio do filme enquanto me chamava de "o idiota mais fofo" que ela já tinha conhecido. Não sei, mas eu adorava ser chamado de idiota por ela. Eu imaginava que, o que entregava o sentimento dela, era o modo que se referia a mim. Me xingando de um jeito diferente, ou chamando meu nome de um jeito mais legal. Isso fazia crescer a vontade de ouvir um "te amo" sair daquela boca.
Quando o filme terminou - filme péssimo, diga-se de passagem - levei Bárbara para casa enquanto Clara foi para casa de Michael. Como morávamos no centro, morávamos também perto de tudo, inclusive do cinema. Era uma distância considerável, sete longas quadras que andamos devagar. Aquilo estava perfeito. Só nós dois pelo meio da rua, enquanto a única coisa que se ouvia era as nossas vozes conversando como se a gente fosse amigos desde os dez anos de idade. Eis que no meio desse caminho, a chuva começa a cair sobre nossas cabeças. Eu teria odiado isso, mas nesse momento, descobri que Bárbara adorava banhos de chuva inesperado. Não nos deixamos abater pela água que nos molhava, ficamos feito crianças andando e jogando água das poças um no outro. Cantávamos mais alto que o barulho da tempestade, estávamos de fato muito felizes.
Ao chegar em sua casa, deixe-a novamente na porta e a abracei. E ao pé de seu ouvido, soltei o que estava entalado na garganta:

- Eu te amo.
- O quê? - espanto.
- Eu disse que te amo. Você ainda não percebeu? Todas essas nossas conversas, você me perguntando se eu tinha alguém, se eu gostava de alguém, eu sempre respondia não, justamente porque eu quero você. Não que houvesse alguém, é claro, mas, o que me interessa agora é você... Não acho exagero nenhum eu disser que gostaria de passar o resto da vida ao seu lado, Bárbara. Se você tiver algum outro cara em vista, não hesite em me dizer agora. Pelo menos eu já consegui te dizer tudo o que queria. Acho que até a Clara já se tocou que eu amo você.
- Oh, Glenn... Eu estou sem palavras. - confusa
- Tu..Tudo bem, eu vou entender se você não quiser mais...
Antes que pudesse terminar de falar, Bárbara desceu um degrau e me deu um beijo. O beijo mais longo que já recebi na vida, o tão esperado beijo. O encontro de línguas que marcou nossos corações para sempre, misturado com água que vinha dos nossos olhos e com a água que caía do céu. Me descobri ali, naquela noite de sexta feira, a pessoa mais feliz do mundo todo.

- Glenn! Glenn! Glenn! - eufórica - Eu tinha medo de te dizer isso e você não querer nada comigo. Você me dizia que nunca havia tido coragem de contar para uma menina o que sentia, achei que fosse acontecer o mesmo agora. Imaginei te dizendo todas essas coisas e você me deixando arrasada. Clara me dizia coisas do tipo "Bárbara, até eu sei que ele gosta de você!", e isso me encorajava demais, mas ainda sentia medo de que fosse imaginação... Glenn, você me fez a mulher mais feliz do mundo agora.
- Eu te amo, Bárbara.
- Je t'aime, Glenn!

É isso aí... Para completar sua perfeição, Bárbara sabia falar francês.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Post #157 (#152 Pt. VI)

Acabamos passando horas no telefone naquela semana. Fiquei sabendo coisas interessantes a seu respeito e eu, com muito esforço e coragem, acabei falando um pouco de minha vida. Ela não era muito parecida comigo. Gosto musical, literário, comidas... Eram tão diferentes. Isso não era ruim, já que eu estava tão envolvido com ela. Ela me adorava, mas não dizia que gostava de mim, ela era do tipo da garota que gosta de ter certeza do que está sentindo antes de sair falando "qualquer coisa"... ou só era tímida mesmo para dizer que morria de amores por mim - era isso que eu imaginava.
Ela era três anos mais jovem que eu. Fez faculdade de Direito mas não seguiu carreira. Dividia apartamento com uma amiga que conhecera antes da faculdade, só que, diferente de Bárbara, fez o que a vida lhe ordenou. Elas eram diferentes, pelo que me falava. Clara era mais festeira e vivia com um cara por vez. Não se apegava fácil e dificilmente sofria por algum deles. Depois de sua primeira desilusão, em que o menino que gostava na adolescência beijava sua irmã em sua frente, ela não se abateu e resolveu não se importar com isso. Não entendi como ela conseguiu fazer isso com facilidade, achei ela muito estranha por causa disso. Elas já eram amigas de tempo mas Bárbara ainda não havia falado de mim, apesar de Clara ter-lhe perguntado milhares de vezes com quem ela conversava tanto no telefone.
Bárbara me apaixonava com as coisas que me dizia. Ela me fazia rir demais, feito uma criança mesmo. Ela era divertida e bonita. Ela não precisava usar maquiagem para se tornar a mulher mais linda que poderia existir, mas insistia em passar lápis nos olhos e um brilho caía aos lábios. Ela era realmente incrível. Seus cabelos que dançavam aos ombros eram perfeitos. Era atraente e não fazia cerimônia para escolher roupa - amém! Havia perdido o pai quando criança e mãe morava em um bairro próximo ao centro. Tinha um irmão que morava na Austrália, casado e com duas filhas. Era tia, e eu, implorava em silêncio para que pudesse me tornar tio das crianças.
Pensei em convidá-la para vir à minha casa beber um chá, ouvir uma música, dançar sem medo que outras pessoas assistissem, conhecer o Doyle. Mas não o fiz. Não era hora para isso, mas de certa forma, acho que ela sabia que eu queria passar um dia abraçado com ela. De certa forma, ela sabia que eu estava apaixonado.

...continua

Post #156 (#152 Pt. V)

A semana começava mais uma vez, tão normal e pacata quanto as outras se não fosse por uma coisa: eu estava feliz. Não sabia que gostar de alguém - sim, eu gostava de Bárbara - causava tanto impacto assim em alguém. Claro, o "gostar" que eu digo não era aquele da minha adolescência, que eu escondia de todo mundo e ficava triste por qualquer coisa, esse gostar era como um triunfo, uma vitória. Acho que era por achar que ela também gostava de mim. Eu saí de casa tão alegre, cumprimentava todas as pessoas que via na rua, me senti a pessoa mais simpática do mundo... E tudo isso por causa de uma pessoa.
Eu desenhava para um jornal da cidade, coisa que Bárbara até então não sabia, mas os Glenn que vinha assinado nos quadrinhos era eu. Quadrinhos que, ela adorava e sempre gostava dos desenhos "bem feitinhos". Eu saía cedo do meu trabalho, por volta das 15:00h todos os dias, dava tempo de sair, ir para casa e depois ir ao sebo em que Bárbara trabalhava. Resolvi começar a fazer isso. No caminho, comprei-lhe um chocolate por agrado. Não queria mudar com ela ou acabar fazendo alguma coisa que lhe causasse, não que palavra usar, mas que não fizesse ela desgostar de mim, entendem? Eu pensava em fazer todas as suas vontades.
Cheguei ao sebo e logo a vi. Meus olhos cresceram rapidamente e meu coração - novamente - ascendeu à boca. Fui até ela, agora, já com menos vergonha do que na primeira vez:

- Olá. Lembra de mim?
- Glenn! Que ótimo te ver por aqui.
- Saí do trabalho agora e resolvi dar uma passada para ver como você estava. Acabei ficando sem seu telefone para falar com você e ver como tem passado desde sábado.
- Ficamos combinados assim: eu te ligo logo quando chegar em casa e te passo meu número para me ligar quando quiser. Aquele sábado foi a melhor noite de minha vida, nunca havia estado com um cara tão legal quanto você e eu só tenho a te agradecer. Agora... Finja que está procurando algum livro ou disco que eu estou no meio do trabalho, seu bobo!
- É sério? - comovido - você realmente gostou da minha companhia? Bárbara, eu queria te dizer que você é a coisa mais extraordinária que já me aconteceu. Eu sei, é meio meloso e besta, mas é verdade.
- Óun, Glenn - brilhavam os olhos - você é um amor de pessoa, mas eu preciso voltar ao meu trabalho.

Parei de encher-lhe logo depois disso. Perguntei aonde estavam as HQ's e saí como quem não conhecia ela. Ao chegar à porta, piscou-me um de seus olhos castanhos e me acenou a mão. Aquilo foi lindo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Post #155 (#152 Pt. IV)

Enquanto eu voltava para minha casa, esperando um novo domingo tediante chegar, eu parecia que estava nas nuvens. Estava me sentindo a pessoa mais feliz do universo, não havia motivos para eu pôr novamente uma máscara triste nesse meu rosto barbado. Cheguei em casa e dormi feito uma criança.
Mais um domingo bateu à minha porta e novamente eu fiquei fazendo o que eu faço todos os domingos - nada. Isso não me preocupa mais. Quando eu tinha dezessete anos, era o fim do mundo para mim. Passava o dia todo na internet, mas sempre tinha alguma coisa para fazer. Eu era desanimado com a vida e ficar em casa no domingo era a única opção que me sobrava. Eu rezava para que o domingo demorasse para chegar, mas o tempo corria contra mim. Parece que tudo o que interessava-lhe era o domingo. A única pessoa que odiava domingo tanto quanto eu, era um amigo que eu tive, mas que por ventura nunca mais falou comigo. Foi-se para São Paulo e hoje não faço ideia de como esteja. Espero que esteja bem, eu o adorava.
Enquanto eu tocava minha viola nesse domingo de pijamas, não consegui tirar Bárbara da cabeça por um só segundo. Acabei fazendo umas melodias e uma canção com o nome dela. Foi coisa de momento e eu não faço ideia de como era a letra. Eu pensava em como ela estava, o que estava fazendo, como acordou, como foi dormir e principalmente se estava com um outro alguém - ciúme? Eu me via cada vez mais envolvido com ela e juro que isso estava me fazendo bem. Pensar nela só me fazia lembrar que passou da hora de comprar aquele disco do Cartola.
Pensei em passar na casa dela só para dar um oi e, se quisesse, sair comigo para fazer alguma coisa que as pessoas normais fazem domingo - shopping não. Mas enquanto eu colocava meus "red shoes" - and dance the blues - a chuva, ironicamente, começou a molhar a minha janela. Isso foi mais desanimador que ver uma menina que eu gostava de mãos dadas com outro guri. Coisa de adolescente besta. Hoje minha vida é diferente. No mais, fui obrigado a morar sozinho por mais um domingo. Junto de minha vitrola, minha caneca, livros e de meu fiel companheiro - Doyle, meu gato que já me acompanha há dois anos. Quando me mudei para esse apartamento, eu notei que precisava de uma companhia, e nada melhor que um gato para ouvir minhas mágoas.

...continua.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Post #154 (#152 Pt. III)

Eu dei o meu telefone para ela na esperança de que ela me ligasse. Não pedi o dela porque eu sabia que não iria ter coragem para discar os números. Eu sempre odiei telefone, nunca me dei bem com essas coisas, achava minha voz horrível e tudo mais - aliás, eu achava tudo em mim horrível. Fui até a cozinha, preparei mais um chá e sentei-me novamente em minha poltrona esperando pela ligação de Bárbara. Esperei por longos dez minutos, até que o telefone tocou. Eu conversei com tanta facilidade que fiquei até impressionado comigo mesmo. Juro que não pensava que me sairia tão bem falando ao telefone com alguém... Alguém como ela, é claro. Marcamos de nos encontrar sábado à tarde para comermos juntos e nos conhecermos melhor. Eu ficava cada minuto mais ansioso.
Chegando àquele sábado, eu levantei como se eu fosse o cara mais sortudo do mundo. Se nada que eu havia planejado ou pensado chegasse a se concretizar, eu já estaria satisfeito com a atitude que tomei de ir falar com Bárbara pela primeira vez - tudo bem, foi no trabalho dela, se fosse na rua provavelmente iria passar batido. Resolvi mudar. Ao invés de chá, preparei um café fortíssimo e ouvi Orlando Silva a manhã toda. Tanta inspiração servia como um combustível a mais e o mais legal disso é que eu estava super confiante. Tomei o banho mais longo da minha vida e coloquei a minha melhor roupa - coisa brega e nada na moda. Saí de casa ao som de pássaros cantando, desci as escadas dançando, o meu coração estourando, e as flores à mim sussurando coisas legais que traziam harmonia à alma.
Cheguei lá e ela estava virada de costas para a porta. Roubei uma singela margaridazinha e cheguei todo tímido - eu realmente não sabia o que fazer - ela levantou e cumprimentou-me:

– Oi, Glenn. - disse-me com aquele mesmo sorriso encantador.
– Olá. - em tom meio baixo.
– Então... Você vem muito nesse lugar?
– Negativo. Gosto de vir aqui em ocasiões, digamos, especiais.
– Tipo quais?
– Não sei. Essa é a primeira vez.

Depois dessa cantada inventada na hora, Bárbara olhou para o fundo dos meus olhos, como se quisesse me esmagar, ou me abraçar até morrer. Pelo menos era o que eu gostava de acreditar. Conversamos até mais ou menos onze horas da noite, que foi quando o restaurante fechou. Cometi uma gafe tremenda que não quero pôr em linhas. O importante disso é que Bárbara riu como nunca havia feito na vida - segundo ela mesma.
Quando saímos de lá, resolvi dar uma de cavalheiro de levar ela até sua porta. Enquanto caminhávamos, fomos conversando mais e nos conhecendo cada vez mais. A gente até arriscou alguns passos de dança sob aquela neblina densa, onde ninguém nos via - só fizemos isso justamente porque ninguém nos via - rimos feito dois idiotas e demoramos muito tempo para chegar. Quando lhe deixei, ela sorriu - ai meu Deus, como eu adorava esses sorrisos - e disse:

– Obrigada pela noite. Você é mais interessante do que eu pensava!
– Como assim "do que eu pensava"?
– Desculpa, mas meu gênero instrospectivo não vai me deixar falar mais que isso. Já estou espantanda de ter aceitado seu convite.
– Tudo bem. Acho que te entendo, também tenho esse lance todo quieto e tal... Espero te ver novamente.
– Bem, eu tenho seu telefone e você sabe aonde eu trabalho e fico o dia todo. Então... Oportunidades não faltarão!
– Ficamos combinados então. Qualquer coisa me ligue.
– Ligo!

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela deixou cair sua boina - propositalmente? - ao meus pés. Fui obrigado a devolver-lhe. No ato, ela desceu as escadas e me abraçou com força, me deu um beijo na testa e depois ficou envergonhada. Foi a coisa mais bonita que fizeram para mim em vinte e oito verões...

...continua

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Post #153 (#152 Pt. II)

– Moço...? - disse rindo meia boca.
– Desculpe. Não prestei atenção em nada do que disse. Mas já achei o que queria. Até outro dia.
– Tudo bem - e sorriu-me de uma forma tão doce que quase morri de amores ali mesmo.

Claro que aquilo que eu acabara de falar não era a coisa mais inteligente do mundo. Mas na hora, sei lá... Eu travei tudo, fiquei sem reação, não soube o que falar... Não é de hoje que eu não sei me portar perante uma mulher bonita. Eu sei lá, mas eu senti tanto amor naqueles sorrisos que eu até esqueci que disco queria comprar. Acabei saindo do sebo de mãos abanando, em compensação, meu coração transbordava coisas legais, lindas, recheadas de carinho e outras mil peças pregadas por essa minha imaginação tão fertil.
No outro dia, pensei em voltar até lá só para tentar conversar com ela uma vez mais. Dessa vez, eu queria mesmo conversar e não só perguntar aonde ficavam os discos. Acabei não fazendo por razões das quais eu mesmo desconheço. Talvez tenha me faltado coragem. Quando resolvi voltar lá, fui destemido a realmente conseguir alguma coisa além do "Oi, aonde fica a sessão de filosofia?":

– Oi.
– Olá. Em que posso ajudar?
– Eu venho observando esse sebo há um tempo. Notei que você é quase a coisa mais incrível que meus olhos já tiveram o prazer de encarar. Vim aqui atrás de um disco há uns dias, mas saí sem nada, esquecendo até o que estava procurando. Acho que eu só queria te dizer que você é linda. Era isso. Estou pronto para ouvir qualquer tipo de xingamento. Depois disso vou embora e prometo não mais encher-lhe a paciência.
– Oh... Obrigada! - riu envergonhada - Eu ouvi isso muitas vezes na minha vida, mas nunca de maneira tão transparente quanto essa que me transmitiu. Você parece ser uma rapaz legal, como se chama?
– Glenn. E você?
– Bárbara.
– Parece mentira ou meio piegas, mas eu sempre adorei esse nome...

E assim conversamos durante um bom tempo. Para mim era um avanço gigante, conseguir conversar com uma moça tão bonita quanto Bárbara. Resolvemos nos encontrar fora do Sebo para ver aonde nossas conversas nos levariam. Eu estava mais nervoso que um certo menino em sua primeira apresentação escolar.

...espero que haja continuação