sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

codeine

eu caí na real. eu nunca fui poeta. eu só tenho problemas imaginários que minha cabeça insiste em criar. eu nunca fui amor. eu sou só medo. medo de machucar o outro. medo de me relacionar. medo de fazer alguém chorar. medo de morrer. mentira. esse último medo não existe. aliás, para ser sincero, eu até ficaria grato se acontecesse. desligar do mundo? me desligar das pessoas más que existem? isso seria mais do que o que desejei. mas a partir disso vem o pior medo: e se do outro lado ainda existir gente? eu não sei mais lidar com as pessoas. não quero ter que lidar com mais pessoas mesmo depois de morto. eu não quero mais sair de casa. eu não quero ir ao bar e sorrir um monte de mentiras. eu não quero conhecer pessoas novas. eu não quero conhecer pessoalmente as pessoas que só conheço pela internet. eu não quero sair do meu quarto. eu não quero dar risada e voltar pra casa frustrado. eu cansei disso. eu não quero voltar pra faculdade e ser uma pessoa diferente desta que escrever estas linhas mal escritas. eu não quero sair pra comprar pão e receber o desprezo do padeiro. eu não quero comprar cigarro e receber como troco o desdém da moça do caixa. eu quero que todo mundo vá pro inferno. bando de pilantras.

relaxa, só tô escrevendo isso por estar magoado comigo mesmo. eu não odeio vocês de verdade.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Vivi até os oitenta mas deveria ter parado nos cinquenta

Viu a vida passar diante dos olhos
Os corpos diante da palma da mão
Viajou com quem pôde mais longe
Vive com saudade no coração

Caminha todas as tardes até a pracinha
Para alimentar os pombinhos dali
Nunca comeu carne de paca
Quanto mais carne de javali

Trabalhou quarenta anos num lugar horrível
Onde não conseguia fazer amigos
Onde as pessoas não se importam com o outro
E só olham para seus umbigos

Suspira a carne seca que janta
Sentado sozinho à mesa
É rei do seu próprio mundo
Mas sem o sorriso de princesa

Hoje o pobre velho espera a morte
Na janela da sala olhando o João-de-barro
Começou a fumar muito cedo
Pois botava muita fé no cigarro

Agora, sem amigos ou parentes
Ele assiste aos filmes da adolescência
A lágrima corre o rosto enrugado
E de mãos atadas pede clemência

"Ó, meu deus, me leva por favor
Já não tenho a quem fazer sorrir
As pessoas são muito complicadas
E minha vontade é de partir"

Deus atendeu à sua prece
E o levou para morar no seu ninho
Parece mentira, mas até deus o tratava mal
Nem no céu conseguiu ter carinho

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

a morte do poeta

andei até o fundo do mar
capotei com todos meus carros
queimei meus livros do vinícius
e até os do manoel de barros

não tomei banho para ir ao trabalho
não me alimentei como deveria
a tristeza tem batido sempre à porta
e as lágrimas caem em demasia

não escovei os dentes para ir dormir
quebrei meus ossos andando de bicicleta
por desânimo resolvi parar por aqui
e decretar, por fim, a morte do poeta

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

E eu não troco meus livros nem minha coleção de discos por você, então exclamou

Te dei a chave e deixei a porta livre
Você chegou e engoliu a chave
Antes, chorou ouvindo Joie de Vivre
E a bola do gol bateu na trave
Com a cabeça deitada na cama
Pensou no que ainda não esqueceu
Aquela doce voz não mais te chama
E cê lembra, até, do que não aconteceu
O sol já dá bom dia às bolsas dos olhos
E faz frio mesmo com o calor
"Os meus ferinos abrolhos
Nasceram do teu amor"

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um rap anti-homofobia à procura do beat perfeito

Quando cê liga a TV querendo se entreter
Não percebe que homossexuais são só pessoas como você?
Que sentem dor no peito quando são magoados,
Que são abandonados pelos seus namorados,
Que quando adoecem também ficam internados
E quando tão sem grana, vão ao caixa pegar extratos.
Por que diminuir um ser-humano achando ser melhor?
Na terra onde os home controla todo mundo é o pior.
Todos temos dois olhos para ver a beleza do mundo
Mas com esse preconceito a tristeza vem em tamanho jumbo.
Duas garotas podem, sim, trocar beijos no meio da rua
Dois garotos podem, sim, andar de mãos dadas
Se o amor nos impedir de ter nossa pele nua
Será que não é melhor viver num conto de fadas?
O pressuposto vindo da bíblia mata pessoas pelas ruas
Espanca corações que buscam, apenas, um ponto de paz.
Alguns preferem bem-passado, outros, as carnes cruas
E todo essa idiotice não os deixam viver mais.
O Datena mostra toda tarde que gays morrem pelos becos do Brasil
O Bonner põe na tela que na Rússia não há tranquilidade.
Eu só queria acreditar que o mundo todo não é hostil
E ver esses casais demonstrando afeto nas praças da cidade.
Nas palavras enjoadas do Malafaia cê não deve acreditar
Nem em nenhum padre que julgue seu amor como pecado.
Você é uma pessoa livre e não importa a quem amar
O futuro não deve ter a mania de querer imitar o passado.
O batom nos lábios pede beijo na boca
O cabelo tá grande e fica saindo da touca.
Pinto os olhos com o lápis do estojo
Só pra dizer que sua homofobia me dá nojo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Brasas esverdeadas

Acendi um incenso e li as frases escritas nas minhas paredes
Sentei-me sozinho na cama antes de preparar o café
Senti a brisa que vinha da manhã que não era normal num Dezembro
Antes de sair da cama peguei meu cigarro e meu isqueiro
E te acendi junto ao cigarro
Te acordei do sono profundo que dormia dentro da minha cabeça
Já pedi tantas vezes para que você desapareça
Mas daqui você não sai
Teu sorriso ainda me atrai
E é aquela velha história: penso sobre a morte e sobre seu sorriso o tempo todo
Mas, para mim, as duas coisas são uma só.
E eu não sei me desligar disso.

Olhei para o céu na esperança que caia água
Mas do céu eu só recebi os sorrisos das nuvens e o calor do sol
Lembro de ti até vendo futebol
Ainda não afoguei nenhuma mágoa.
Levantei e peguei o cinzeiro que estava ao lado do notebook
E voltei para a cama.
Dormir mais uma hora, talvez? Afinal, eu preciso.
Há dois anos não sei o que é dormir direito.
Você sempre invade meus sonhos outra vez, e outra vez, e outra vez...
Daqui não sai nada
E cê nem é mais a namorada
Que tanto sonhei na adolescência.

Por que será que ainda me sinto assim?
Por que será que sinto tanta vontade de conversar de novo contigo?
Será que é remorso por ter dado alguma mancada?
Eu não sei. Honestamente, não sei.
Terminei o cigarro, bebi o café e você ainda não foi embora.
Às vezes desconfio que tu tenhas duas casas.
Uma, a sua, onde mora. A outra, meus pensamentos. Meus desejos.
É complicado, cara. Para mim é muito complicado.

Dia vinte e seis, logo após o Natal, eu vou viajar.
Mas não é para algum lugar, fisicamente, perto de você.
É para um lugar onde eu consigo estar mais perto de mim
E
Mesmo tão longe
Um lugar onde eu consiga te sentir perto. Sussurrando em meu ouvido.
Me chamando de apelidinhos idiotas e carinhosos.
Já não quero sentir isso.
E dentro do peito a solidão ecoa.
Não quero mais pensar em você.
Eu quero sofrer por outra pessoa.

Saio do quarto e te deixo na cama, até a hora em que resolva me atazanar novamente
No meio da rua
Na carne crua
Na pele nua
Fazendo com que a água que tanto quero ver cair do céu
Acabe caíndo dos meus olhos.

Eu não sinto saudade.
Eu não vejo tv.
Eu sinto é vontade
De sumir com você.
E botar aqueles planos em prática. Talvez eu deva esperar...
Porque, assim como tu mesma disse, "o nosso tempo ainda nem começou"...

... Sai de mim para que eu possa voltar.
Mas volte daqui duas semanas,
Para colorir o coração
Que quando te vê ferve em chamas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Acácio não quer acordar no dia de amanhã

Pensar ainda incomoda um bocado
e eu já nem sei mais o que temer
nem o cigarro tá me ajudando essa noite
será que, por deus, desaprendi a escrever?

Sou amigo das páginas em branco
e o meu sofrimento ninguém vai deter
será que se eu for dormir agora
amanhã já conseguirei esquecer?

Meus olhos reprovam a ação da minhas mãos
com tanta pancada na cara a vista vai escurecer
este corpo não aguentaria mais um dia ensolarado
que custa sair do mundo sem que eu tenha de envelhecer?

Um carro que passa em alta velocidade,
um sorvete que, ao sol, põe-se a derreter
será que se eu fumar outro careto agora
amanhã eu tenho a sorte de já morrer?