terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Inimigo

Sentado na mesma cadeira de espera
espero que alguma coisa mude
na sala principal ou na sala de baixo
por entre corredores intermináveis
de portas brancas numeradas
onde guardam corações perdidos
corações quebrados
corações loucos e amarelados
de onde vem uma moça de branco
branco como as paredes
branco como as portas numeradas
uma moça com uma bandeja de frutas
frutas em formatos de cápsulas coloridas
frutas amargas, pequeninas,
dessas que irritam a garganta e você tem que tomar com água
dessas que te acalmam e fazem você parar de chorar
não gosto muito de comer essas frutas
mas vivem dizendo que é pro meu bem

sábado, 9 de fevereiro de 2013

CdPS

E é assim
meio que de repente
que você percebe que certas coisas devem parar de andar.
Uma música deve parar de arranhar seus ouvidos,
um nome deve parar de te dar socos na cara,
para que as coisas, enfim, voltem ao normal.
Não sei o que ocasionou tanta dor dentro de mim.
Deve ter sido a certeza do infinito
a parada brusca e inesperada numa noite de dezembro.
Alguma coisa que deu errado,
algum momento em que agi errado...
Sei lá.
Ainda assim, apesar de tudo o que passei em mim
apesar de conflitos, cortes profundos, cicatrizes abertas
você continua sendo minha saudade mais sincera.
Eu fico feliz de ver que você está feliz. Você é linda e merece tudo de melhor
e conversar contigo, para mim, sempre será um prazer.
Até quando quiser.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Rotina

Têm noites em que eu saio do meu quarto, às 2h46, por aí, e subo no muro da minha casa pra ver o movimento quase zerado da rua. O céu está meio rosado. São as nuvens que deixam ele com essa coloração numa hora dessas. Tento botar todos meus pensamentos confrontantes com a insônia ajeitados. Às vezes acendo um cigarrinho pra ver o tempo passar, pro vento bater na minha cara, cuspir-me algumas verdades. Às vezes, também, lembranças inquietas insistem em me atazanar. São como feridas abertas que sangram de vez em quando... E é com elas que me deito todas as noites. Fico no meu muro por cerca de vinte, trinta minutos e vou pra cama. Nesse meio tempo passam carros bem devagarinho pela rua. Passam assustados. De certo o motorista pensa "Mas o que esse louco tá fazendo acordado nesse frio?" e ele nem desconfia de como é difícil ser eu. Ter praticamente tudo e ainda se sentir incompleto, chorar por pouco ou quase nada no meio da rua ou, até mesmo, torcer para que algum dos carros o atropele. Sei lá, acho que preciso de um outro cigarrinho. Merda. Já são 3h57...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Muda de lugar

Estação de metrô é uma coisa engraçada.
É muita gente igual indo a lugares diferentes.
Em toda a manhã eu observo o mesmo cara.
Com um lindo sorriso no dente.
Justo quando o metrô pára.
E ele entra sempre no vagão diferente.

Fico imaginando como seria se ele entrasse comigo.
Sentasse do meu lado e pedisse o meu fone.
Eu provavelmente permaneceria parada.
Paralisada.
Com minha beleza cega e insone.

Ele sempre entra no vagão da frente.
Mas nunca olha pra mim.
Queria saber onde ele desce.
Para que essa angústia tenha fim.
Mas ele fica no outro vagão.
Vai ver ele olha pra outra garota
que não eu.

Ele às vezes está de barba.
Às vezes de camisa xadrez.
Ou com camiseta branca feito minha louça.
Ele sempre carrega livros
que se perdem com meu coração
bem lá dentro de sua bolsa.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Areia

Sair sozinho, do jeito que fiquei
náufrago nessa ilha deserta
requer muita experiência. Sou inexperiente.

Ainda sou quase criança
não aprendi muito disso
desde o dia em que você me afundou
venho treinando forte cada braçada.
Devagar, mas há um progresso.

Na beirada que o mar insiste em vir beijar
por distração, construo castelos de areia
à cada mordida que o mar dá na praia
me vem à cabeça como fui tolo
ao perceber que algo que eu julgava ser farol
era apenas uma sereia...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Risperidona

Hoje eu não tomei meu remédio.
Tô me sentindo distante... Me perdendo.
Tô com saudade de mim.
Não ter tomado o remédio foi o melhor que fiz por mim nas férias.
Mesmo assim me sinto distante e com saudade.
Saudade de mim.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

escrito no dia três de maio de 2012


o que estou sentindo é vontade de ser estrangulado
de ser esfaqueado, baleado ou afogado
isso acabaria com o sofrimento de muita gente
faria muita gente feliz e triste
reacenderia chamas já apagadas e abriria torneiras de vários olhos
deixaria muita gente contente e confusa
sem saber o que sentir
se iriam se sentir como no passado
ou se iriam se sentir como no presente
assim mesmo, reacenderia chamas já apagadas
e a cachoeira dos olhos iria jorrar
não digo nada disso por carência
por falta de amor, amigos ou sono
é só vontade que dá de repente
que faz perceber que a gente
nunca foi importante, afinal
é vontade que vem do nada
e que martela a cabeça
faz sangrar e machuca
e mesmo com toda a dor
é o caminho sem volta que todos nós fazemos
vai ver, morrer nem é tão ruim assim.